o pequeno mentiroso.

Ela estava em um dia calmo, as coisas seguiam num fluxo bom e constante. Então resolveu falar com ele de novo; afinal porque não falaria?
Pegou o celular de sua irmã (que dispunha dos créditos que ela não possuía), e ligou.
ele - alô?
ela (reconhecendo o sono em sua voz. ) disse - alô? - de volta.
ele - quem fala?
ela - quem fala?
...
ela o remendou ... era um jogo usual entre eles.
...
ele riu do outro lado.
ela pensou então que o jogo tinha acabado, e que havia sido "pega".
...
O sono da voz, foi rapidamente substituído pelo bom humor. O que foi de grande estranhamento para ela que assim que percebeu que ele estava dormindo, fora prontamente dominada por arrependimento e culpa.
Mas vai ver ele tivesse tido um dia bom também.
...
ela - uai, mais você já esta dormindo?
ele - já é tarde.
ela (consultou o relógio que marcava 22:30) - mas ainda são 22:00.
...
Sabia que ele não recorreria ao relógio para desmenti-la e caso ele o fizesse ela se faria de mal entendida ... não existia nenhum tempo cronológico do amor. Só havia uma leve vontade de vê-lo e que o final de semana chegasse logo.
...
ela - você trabalhou muito hoje, mô?
...
Houve um curto silêncio.
Curtíssimo.
...
ele - mas é você (...)? poxa!!!!! (Muito provavelmente pelo tom  e deformidade da voz a vontade dele era ter trocado aquele "X" por dois "Rs", tipo: p o r r a ) - porque você não me disse logo que era você?!
...
Ela foi pega num susto.
Num susto tão grande, que mal conseguia organizar as ideias e digerir aquilo tudo... disse apenas que achava que ele tivesse percebido que era ela.
Mas não, ela havia jogado aquela partida sozinha, e acabava de perder.
Sua vergonha e mágoa foram pouco a pouco sendo substituídos pela a outra voz atrás da linha que depois de um estalar de beiços (como a gente faz quando se decepciona) concluiu dizendo - amanhã eu te ligo.
ela - então tá.
E ele desligou.
...
Ela continuou conversando com o bipe do telefone ... tentando encobrir aquilo (o qual ela não consegui dar um nome) de sua irmã que estava perto. Em seguida foi interrompida do seu teatro pelo som da mensagem que chegou no celular (que informava o saldo atual)... estava tão atormentada que havia esquecido que ela é quem tinha ligado.
Um mar de pensamentos quebravam em sua cabeça como ondas.
A maré estava cheia e revolta... a areia de seu corpo havia sido coberta nos últimos dias por uma sessão de pequenas gotas de mentira. E de repente havia ali um oceano.
Começou a desconfiar, afinal se ele não esperava pelo telefonema dela, pelo de quem mais seria? Quem mais ele trataria com tanto humor e benevolência, aquela hora da noite?
O fato é que essa pessoa não era ela.
...
Tirou os chinelos e passo á passo se dirigiu cuidadosamente ao quintal com sua irmã, e se entregou a mais uma sessão daquele cigarro "back to black" ... não mais sentia torpor ou dores de cabeça (habitualmente causados pelo primeiro fumo). Naquele quinto/sexto cigarro do dia (de uma temporada de longos meses sem fumar), sentia apenas o forte gosto do pigarro misturado com a menta, e a ponta dos dedos fedidas e quentes.
O resto era raiva, vergonha e dor.

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